Família Orgânica ultrapassa fronteiras
Fonte: Correio Popular—08/05/2008
Autor: Lu Dressano ESPECIAL PARA AGÊNCIA ANHANGÜERA luciene.dressano@rac.com.br
Parcerias com produtores de Campinas, Valinhos, Itatiba, Rio Grande do Sul e até da Bolívia geram mais de 200 produtos
A Fazenda Santa Fé, um condomínio rural de 36 alqueires, está localizada entre Campinas e Jaguariúna, na região do bairro Carlos Gomes. O professor Dercílio Aristeu Pupin aluga um alqueire para morar com a família e plantar quiabo, berinjela, milho... Galinhas vivem soltas e garantem os ovos caipiras. Tudo para a subsistência da casa. Na vizinhança, a realidade era a mesma até dois anos atrás, quando um sinal verde foi dado à iniciativa orgânica. “Chegamos e percebemos a qualidade da produção. O excedente era destinado para criação, adubo e até para o lixo”, diz Pupin. Assim, primeiro os amigos, depois os amigos dos amigos, começaram a adquirir os produtos. As entregas eram feitas nos próprios carros. A partir daí, Pupin reuniu os vizinhos produtores, cuja consciência ecológica conta pelo menos 30 anos. A boa relação entre as famílias e a produção organizada gerou um negócio: a Família Orgânica.
Hoje, parcerias com produtores de Campinas, Valinhos, Itatiba, Rio Grande do Sul (de grãos a vinho) e até da Bolívia (quinua) geram mais de 200 produtos (verduras, legumes, grãos, laticínios e até material de limpeza e cosméticos). Tudo orgânico. “Esse tipo de produção ainda é muito espalhado. A nossa proposta é aglutinar e favorecer a chegada dos produtos a mais famílias”, explica Pupin. Em pouco mais de dois anos, o boca em boca juntou 540 apreciadores dos produtos naturais. Os pedidos são feitos semanalmente e as entregas chegam nas casas. Quanto aos preços, Pupin estima serem entre 10% e 15% mais caros em comparação aos praticados na agricultura convencional. Ele explica: “A oferta e a demanda determinam os preços no mercado. E há especulação. Com os produtos orgânicos, é o custo da produção que define o preço”.
Entre os produtos, as verduras geralmente apresentam valores mais em conta. Um pé de alface, por exemplo, sai por R$ 2,00. Já o tomate, o grande vilão (tanto em cuidado no manejo quanto na qualidade), varia entre R$ 5,00 e R$ 6,00 o quilo. Os ovos caipira são disputados: R$ 4,00 a dúzia. As galinhas vivem a ciscar, comer minhocas e restos de vegetais. Apenas enquanto pintinhos ficam no galinheiro, “para terem o local como referência”, explica Pupin. E basta um cocococó e elas chegam correndo para comer o milho jogado. Doga, uma labradora de 8 anos, foi doada à família há um ano. Ela acompanha Pupin, é amiga das crianças e convive numa boa em meio às galinhas.
Saúde e sabor
Pupin é um dos líderes da Família Orgânica, uma articulação de produtores rurais da região, “com a finalidade de propiciar mais saúde e sabor às pessoas e ao planeta”. Promover o verde de forma sustentável é o desafio. Além da venda direta ao consumidor, por meio do sistema de entrega em casa, a proposta familiar desenvolve de forma experimental os projetos Turma (para a merenda escolar) e Produção Terapêutica (para pessoas com deficiência) — esse último aguarda parceiros para o início das atividades. “Nossa maior conquista é conseguir eliminar os agrotóxicos de alguns sítios da região e despertar o interesse de outros que estão iniciando a produção orgânica em parceria conosco.”
Quanto à certificação da iniciativa, Pupin explica da seguinte maneira: “A Família Orgânica não necessita de certificados, uma vez que os produtos são escoados diretamente dos produtores para os consumidores. O nosso papel é apenas o de articular os produtores para que os produtos cheguem até a casa dos consumidores. A maioria dos nossos produtores já conta com a certificação orgânica ou biodinâmica. A relação direta entre produtor e consumidor não tem tal exigência”. Para comprovar o que diz, Pupin apresenta a Lei da Agricultura Orgânica: no capítulo II, que trata das diretrizes da atividade, consta “incentivo à integração da rede de produção orgânica e à regionalização da produção e comércio dos produtos, estimulando a relação direta entre produtor e consumidor final”.
Pupin é de Santa Fé do Sul, na divisa entre São Paulo e Mato Grosso do Sul. Filho caçula, ele viveu na roça até os 9 anos e resgata com essa iniciativa a vida rural do passado. “Além de poder oferecer aos meus filhos uma vida mais saudável, me sinto motivado a cada dia. Surgem novas perspectivas e mais pessoas interessadas em participar da Família Orgânica, seja como parceiro, produtor, representante ou mesmo como consumidor direto de nossos produtos”, diz. “Isso deixa a gente contente, pois temos a certeza que estamos ajudando os agricultores a permanecerem no campo de modo sustentável e ajudando o mundo com mais saúde, seja para as pessoas, seja para o meio ambiente.”
O agricultor também é professor de história, filosofia e psicologia. Ele tem mestrado em educação e há seis anos é o coordenador da ação comunitária do Colégio Pio XII.
Até as sementes já estão sendo produzidas no local
O adubo utilizado na produção da Família Orgânica é um composto orgânico que produz terra vegetal e ajuda a recuperar uma área contaminada. “A terra com mais vida produz alimento saudável”, enfatiza Dercílio Aristeu Pupin. Assim, produto orgânico pode ser definido como aquele cujo manejo não usa agrotóxico. Mas não é só isso. “Além do cuidado com a terra, há ainda o cuidado com os produtos e com aqueles que trabalham nas diferentes culturas”, diz Alejandra, mulher de Pupin. Ela é gerente administrativa da Escola Waldorf Veredas e ajuda o marido a organizar o novo negócio. “O produtor rural deveria ser mais valorizado, principalmente porque colabora com a recuperação de áreas degradadas. Existe uma grande fiscalização entre os orgânicos quando, na verdade, deveria ser impetrada àqueles que não seguem manejos naturais de produção”, afirma Alejandra. Para Pupin, o incentivo de quem já tem consciência e a preferência dos consumidores pelos produtos naturais pode gerar uma produção mais equilibrada e mais saudável. Como exemplo, ele cita uma empresa: “O tradicional cafezinho servido poderia ser orgânico, um incentivo à prática natural de cultivo. Também é uma maneira de desencadear o bem”. Até sementes a Família Orgânica já produz. São de quiabo, alface, rúcula e tomate, entre outras. “O produtor tem também a função de pesquisador, pois vive a observar pequenos insetos e as diferentes possibilidades de controle. Isso, num primeiro momento, pode parecer perda de tempo. Mas não é. Um repelente natural, encontrado entre diferentes tipos de ervas, garante qualidade do produto e produção no futuro. O que requer muita paciência e tentativas.” (LD/AAN)
SAIBA MAIS
Além da venda direta aos consumidores, a Família Orgânica atende de forma experimental a merenda escolar de duas classes da Escola Waldorf Veredas. Trata-se do Projeto Turma, que consiste em reverter um percentual de tudo que os pais e professores compram para uma caixinha da sala. A aplicação é destinada a passeios e outras atividades pedagógicas, além da inclusão do lanche natural.
A Pedagogia Waldorf concebe o homem como uma unidade harmônica físico-anímico-espiritual e sobre esse princípio fundamenta toda a prática educativa. A partir de uma visão antropológica, abrange todas as dimensões humanas, que estão em íntima relação com o mundo, explica e fundamenta o desenvolvimento dos seres humanos segundo princípios gerais evolutivos que compreendem etapas de sete anos, denominadas setênios.
O Decreto 6.323, de 27 de dezembro de 2007, regulamenta a Lei 10.831, de 23 de dezembro de 2003, que dispõe sobre a agricultura orgânica e outras providências.
A quinua é um grão e pode ser encontrada na forma de farinha e farelo. É um produto riquíssimo em proteína e foi considerado pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação como um “alimento perfeito”. E o melhor: a quinua se adapta facilmente nos solos mais pobres. Descoberto pelos incas da Bolívia e do Peru há 8 mil anos, o cereal tem valor nutritivo altíssimo. O público-alvo são os atletas (alto teor de proteína e baixo teor de colesterol), as mulheres em menopausa, já que o grão ameniza os sintomas, e aos celíacos, pessoas com intolerância ao glúten.
As pessoas interessadas em conhecer ou adquirir os produtos orgânicos podem enviar e-mail para pupin@familiaorganica.com.br.
Os telefones para contato são (19) 3257-1145 ou 9714-5507. Mais informações podem ser obtidas no site www.familiaorganica.com.br.